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No caminho para cumprir a rotina de trabalho, todo dia, o mesmo farol, as mesmas pistas, as mesmas ultrapassadas, tudo dentro do carro.

E todo dia, no mesmo farol, um moço que vendia Suflair, os tabletes mais vendidos.

Um moço moreno que corre entre as fileiras dos carros para servir a TODOS! Eu nunca comprei um, mas todos os dias faço questão disso, olhar nos olhos dele e acenar a mão.

Eu olho nos olhos dele porque ali tem algo diferente, refinado. Tenho muito a sensação de que este moço moreno que carrega caixinhas de Suflair e uma mochila, sempre de boné, tem um rosto delineado, acetinado, marcado.

O que mais me faz olhar são as sobrancelhas delineadas de maneira artística, e é ali que vejo o “especial, refinado. Vejo um artista, talvez um palhaço,  ou ator do teatro Opera Buffa, Satyros, ou seiláoquê, mas tem artista ali, que vende Suflair durante o dia para delinear pessoas à noite com sua feição, no mínimo curiosa.


banho

29Ago08

este banho que vale como um,

abraço

que chega perto de uma transa

que me abraça como você me abraça

que me acalma

meu banho é meu momento, sou eu,

em qualquer lugar do mundo

meu banho é quente, me faz calor, caliente

- quer esse banho?

- pega o sabonete por favor?

fechei a torneira (…)


não vou me apresentar desta vez
apenas um “oi” e saudações com o corpo
e voz
desta vez, sou a parte que não conheço, ainda
sou a outra metade, parte
vou andar e fazer como nunca feito
vou gritar e olhar com cara de maluca, minha cara
a cara que eu quiser…mas não de cara…
- Oi, prazer!


de lado

12Ago08

vou pegar na sua mão,

não morra de medo, talvez te aperte, de leve e você sinta,

ou não sinta…

venha comigo, leve, como leve…

e vamos entrar juntos, devagarzinho, não pise muito forte…pise primeiro com as pontinhas dos pés…e não faça barulho, (só se for no meu ouvido), e eu te respondo que sim, que estamos chegando já…não vai demorar muito, mas fique sempre ao meu lado.


meia calça

23Jul08

meia calça rasgada
rasga um fio
fio da malha, de histórias
rasga minha história, minha parte vida, parte, parta!
rasga um pouco de censura, rasga vida
vida rasa, vem rasgar um pouco da parte
sólida.
liquidez difícil, fina e essencial, pra rasgar!
rasga tudo!


Futurismo

Kassin + 2

Quando eu penso em viagens espacias
E nos amigos deliais
Fico tonto sem saber como que vai dar pra entender
O genoma e os neurônios saltitantes
Clones humanos e implantes
O futuro até parece uma brincadeira delirante
Mas se você quiser meditar, no futurismo
E tudo o que deixamos passar, sem se importar
Parece que perdemos o senso de humanismo
E agora a água pode acabar
“Existem milhões de neurônios em nossos cérebros.
Desses milhões de neurônios, uns poucos, só alguns poucos, são neurônios saltitantes. Conseguem captar as características mais novas, dentro do cérebro da mãe e do pai, que serão transmitidas aos seus filhos e filhas.”
Quando penso nos amores virtuais
Nas maquinhinhas digitais
Fico sem saber como fazer pra me convencer
O genoma e os neurônios saltitantes
Ficam alegres e falantes
O futuro até parece com uma patada de elefante
E a natureza serve só para combustível
E tudo o que deixamos queimar, sem se importar
Parece que perdemos o senso e o juízo
E agora o mundo vai se esquentar


Neste parque tem de tudo, é quase uma salada russa.

Têm casais, solteiros, gays e doentes.

Têm casais em plena sintonia, de mãos dadas, um de patins, um a pé mesmo, que fôlego!

Têm casais, os dois de patins, de mãos dadas, outros desatados.

Têm os cumprindo tabela, de mãos soltas. Sem palavras.

Têm solteiros virados da noite, prontos pra outra. Têm outros refletindo.

Este parque, na falta de vida, faz bem pra qualquer um.

Tem a Caminhada contra doenças cardiovasculares, todos de uniforme, andando, andando.

Tem espaços de sol e de sombra. De tumulto e de paz.

Os de tumulto revelam-se entre bicicletas, crianças, cachorros, bicicletas automatizadas para os ricos.

Os lados de paz são para os concentrados com sua respiração e sua transpiração, inspiram e expiram, estão em paz.

Os pais que ensinam os filhos na fase de tirar as rodinhas de suas bicicletas, o passo marcado de quem corre, corre, corra.

Uma parte do parque para quem quer parte de vida.

 

 


Capas

06Jul08

Planeje capinhas pra sua obra, como capítulos, de assuntos diversos, que passem pelas áreas de culinária, artes, musica, voz, cabeça, corpo, copos, cheiros, pessoas e solidão.

 

Abra estas capinhas, como uma dobra na aba de um livro, e deixe lá, de vez em quando, exercite, aposte um pouco mais numa, ora em outra, e nunca as desfaça…

 

São as capinhas de vida, são as capinhas para uma obra completa, cheia de coisas boas e alegres, de cores e sons, cheiros e cheiros, de infância e velhice, de uma boa e uma péssima história pra contar.


conversinha

25Jun08
(11:17) uma: eu dei risada de mim mesma na terapia ontem
vergonha de mim mesma
(11:17) outra: por que?
(11:17) uma: da minha Ligia
(11:17) outra: nossa, sua Ligia é ótima
(11:17) uma: de coisas que andei fazendo, pensando, acreditando, cega
(11:17) outra: tem um alto custo pra vc, mas é otima
(11:17) uma: alto custo?
(11:17) outra: por dentro, na essencia, é uma alegria e inquietação que muita gente nunca vai sentir na vida
sim, alto custo de bancar tantas opções, vontades, palavras que saem da boca, pensamentos que vêm a cabeça
e vc é uma pra administrar as muitas!

Coma

18Jun08

Coma
Extensivo
Extensivo e não terminal
Gotejante
Coma anestésico
Semi consciente
Consistente
Pseudo-eficiente

Sem vida e sem morte
Apenas o movimento mecânico da mão
Tomada ligada

Isso é tudo?
O sistema moderno de bivoltagem impede a possibilidade de curto
Longo coma
Coma

Você pode me ouvir?

texto de Anderson Antonangelo.